Olá amigos das onças! Alguns de vocês já sabem que a Luísa, a onça-pintada da Caatinga, resgatada de uma das muitas cavernas incríveis que existem no Boqueirão da Onça, na Bahia, agora está de casa nova, em cativeiro no Instituto NEX. A equipe do Programa Amigos da Onça, por ter atuado desde o início dessa história, resolveu contar sua história.

Além da equipe do Programa Amigos da Onça, somos muito gratas a todas as pessoas e instituições envolvidas desde o primeiro resgate da Luísa até o seu novo lar!!

O novo lar, um recinto construído especialmente para Luísa morar no NEX, um criadouro científico para fins de conservação, que tem em sua equipe tratadores e veterinários experientes em manejo de animais silvestres em cativeiro. Para entenderem a complexidade, o esforço, a delicadeza, e os custos humanos, legais e financeiros, envolvidos com a retirada de um animal como uma onça-pintada de seu habitat, reparem na lista de instituições que colaboraram: Centro de Conservação e Manejo de Fauna da Caatinga (CEMAFAUNA/UNIVASF), Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP) do Instituto Chico Mendes da Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Enel Green Power (Brasil), Onçafari, Pandhora, 72º Batalhão de Infantaria do Exército de Petrolina/PE, Corpo de Bombeiros de Juazeiro/BA, Ampara Silvestre e NEX; e ainda tem nosso amigo da onça e especialista em cavernas, Rogério Dell’Antonio!

Equipe do primeiro resgate de Luísa

Coloquem na ponta do lápis organizar todas essas pessoas e o custo total disso! Como seria ideal que animais silvestres e humanos não tivessem conflitos, hein! E o animal nem sabe que temos conflito com ele… mas isso é outra história!

A Luísa foi presa em uma caverna por alguns moradores de uma comunidade do interior do município de Sento Sé, Bahia, na região da Área de Proteção Ambiental do Boqueirão da Onça, em abril de 2019, após ter predado uma ovelha de um criador da região e a levado para dentro da caverna, para se alimentar e se refugiar com tranquilidade. Com pena da onça, uma mulher da comunidade entrou em contato com a bióloga Cláudia Campos (que trabalha na região desde 2006 e, na época, coordenava o Programa Amigos da Onça), que logo mobilizou uma primeira equipe de resgate para ir até o local.

Área de Proteção Ambiental do Boqueirão da Onça norte da Bahia

Ao chegar, constataram que não era possível ter certeza de que tinha mesmo uma onça presa na caverna e se ela ainda estava viva, mas acreditaram nos relatos e, após analisarem a situação, verificaram que era mais complicada do que imaginavam, pois, o local era de difícil acesso e havia muitas colmeias de abelhas até à entrada principal da caverna, onde a onça estava presa.

Local de difícil acesso de chegada a entrada da Caverna onde estava a onça Luísa

Colmeias de abelhas presentes na entrada da caverna

Cláudia abortou a missão por segurança e para ser possível montar uma nova equipe com mais pessoas para o resgate, pensando nos inúmeros detalhes que a operação necessitava. Assim, no 22º dia de aprisionamento, no dia 3 de maio de 2019, a estratégia montada deu certo. O animal saiu da caverna e entrou na caixa, confeccionada especialmente para esta missão delicada, que foi posicionada para seu resgate com segurança. Nesse momento a equipe pôde confirmar se tratar de uma onça-pintada.

Onça-pintada Luísa na caixa de contenção após seu resgate

Muito debilitada por ficar muito tempo aprisionada sem alimento e sem água, a onça foi levada imediatamente para um recinto do CETAS do Cemafauna, que já estava preparado caso fosse confirmado o resgate. Somente quando saiu da caixa de resgate  é que a equipe pôde verificar que se tratava de uma fêmea e que precisava de muitos cuidados para se recuperar. A onça-pintada recebeu o nome de Luísa em homenagem à filha de uma das pesquisadoras do Programa Amigos da Onça, que nascera no mesmo dia do seu resgate. Após um mês de tratamento foi possível fazer seu manejo para coleta de sangue, para exames mais detalhados sobre o seu estado de saúde. Neste momento a equipe estimou a idade dela na faixa de 11 a 12 anos e observou que tinha muitos dentes gastos e outros quebrados. Esta faixa etária de um felino corresponde aos nossos 60 a 72 anos de idade, portanto, Luísa já era uma senhorinha em 2019.

Chegada no recinto do Cemafauna primeiro resgate

Dentição gasta de Luísa

Após dois meses de cuidados, suas condições físicas foram analisadas e, considerando o conhecimento sobre a região que ela foi resgatada, optou-se pela devolução da Luísa para a região de mata nativa onde ela já vivia. Foi colocado em seu pescoço um colar com um sistema que permitia seu monitoramento à distância, pois, desta forma, a equipe do Programa Amigos da Onça poderia monitorar seus deslocamentos com segurança.

Devolução de Luísa para a Caatinga

Enquanto se recuperava, a equipe do Programa visitou a comunidade onde ocorreu o caso por diversas vezes, na preocupação de informar os moradores sobre o que tinha acontecido e orientar para a adoção de ações que permitem a coexistência com as onças que habitam a região há muito tempo, explicando que a retirada de uma onça do seu local de origem é uma ação realizada em extrema necessidade.

Palestra na comunidade de Sento Sé, norte da Bahia

Após quatro meses, as pesquisadoras perceberam que Luísa estava novamente utilizando áreas onde os rebanhos domésticos eram soltos para pastar na vegetação nativa e diversas ações para que ela voltasse para a serra foram realizadas, assim como foram dadas orientações para os moradores da região.

Aqui, mais uma vez, foi decisiva a postura de “quem é amigo da onça é igualmente amigo das pessoas”. Fizemos a nossa parte: Luísa sendo monitorada pelo colar, era possível saber onde andava, com pouca defasagem no tempo entre recebermos o sinal e o momento em que ela ali passou. Sabendo isso, íamos até ao local, percorríamos a área emitindo sons que pudessem incomodá-la o suficiente só para se afastar. Tudo isto feito de forma segura por nossa equipe, sem qualquer encontro com ela. Usamos também fogos de artifício sem som, com luz intensa e que abrem perto do chão. E, seguindo nosso pedido, o criador prendeu seu rebanho por um mês completo! Apesar de não ter muito alimento para o rebanho confinado neste período, ele acatou nosso pedido, o que nos mostra que as atuações do Programa nas comunidades em prol da conservação das onças estão no caminho certo. Essas ações combinadas tinham o objetivo de manter Luísa afastada. Sempre lembrar que manejo de animal silvestre não é receita de bolo! O que se faz é baseado no que se conhece do comportamento da espécie. Mas cada animal age de um jeito. Às vezes é tentativa e erro, sim, pensando no melhor para gente e bicho livre.

No entanto, em fevereiro de 2020, Claudia (neste momento já atuando pelo ICMBio, como gestora das Unidades de Conservação do Boqueirão da Onça), recebeu uma mensagem do morador envolvido no primeiro resgate, informando que Luísa tinha sido vista na região e presa novamente, mas em outra caverna.

Sim, Luísa foi presa de novo em uma caverna, mas graças ao trabalho da equipe do Programa com os moradores locais, a pessoa não fez nada malvado ou escondido. Não só não reagiu perseguindo e abatendo a onça, como tomou a iniciativa de avisar Cláudia, revelando o grau de confiança que ao longo de anos de trabalho na região ela e o Programa vêm criando e mantendo. Sua reação perante a vulnerabilidade que sentiu, por perdas em seu rebanho, foi de prender o animal… e pedir socorro para retirá-la dali. Vejam o cuidado que precisamos ter em julgar situações. E o jogo de cintura de quem trabalha com conservação de bichos na floresta? Nem se fala!

Após obter mais informações, Claudia montou novamente uma equipe e foi até o local, que também apresentava dificuldades para o trabalho de resgate, pois haviam duas aberturas para a caverna, tampadas novamente com pedras, o que exigiu a adaptação de dois tipos de objetos para o resgate, também com riscos para a equipe.

Segunda caverna em que Luísa esteve presa Sento Sé, Bahia

Depois de avaliar, a equipe conseguiu encontrar a melhor maneira de resgatar a Luísa. Após três noites de espera, Luísa foi resgatada no 15º dia do segundo aprisionamento na caverna. Novamente debilitada, Luísa foi levada para o Cemafauna/Univasf para receber os cuidados necessários.

Equipe carregando Luísa em seu segundo resgate

Após nova avaliação, descobriu-se que Luísa estava com infecção generalizada na boca e precisaria de tratamento específico de dentistas veterinários, pois com esse problema sentia muitas dores e corria o risco de a infecção se agravar. No caso de animais silvestres, não é rara a ocorrência de mortes por infecções generalizadas, pois impossibilitam que o animal capture suas presas naturais e não consiga se alimentar. Em parceria com a Ampara Silvestre, dois especialistas foram enviados para realizar o tratamento de Luísa, eliminando assim a infecção e as dores que sentia.

Especialistas enviados para realizar o tratamento da infecção bucal de Luísa

Considerando as condições físicas, sua idade, as características específicas da Caatinga e o conflito com os pecuaristas do local em que ela vivia, percebeu-se que não seria mais possível devolvê-la para a natureza. Seguindo os protocolos do Programa Nacional de Cativeiro, foram avaliadas as instituições participantes do programa e o NEX foi identificado como apto a receber a onça Luísa. Agradecemos ao NEX por aceitá-la! Assim, ela foi encaminhada pelo ICMBio, com apoio do Programa Amigos da Onça, do Cemafauna, da Ampara Animal e do 72º BI de Petrolina, para seu novo lar no NEX, no dia 07 de fevereiro de 2021, permanecendo sob seus cuidados e com o acompanhamento do ICMBio por causa do Programa de Cativeiro.

Preparação do transporte para levar Luísa do Cemafauna/Univasf ao NEX

O NEX é onde está Luísa, esta senhorinha que está hoje com aproximadamente 14 – 15 anos de idade (na natureza elas vivem, em média, 15 anos). Ali vai permanecer, com todos os amigos das onças e da Caatinga torcendo por ela e por todas as ‘Luísas’ que têm o sertão como sua casa natural, bioma que tem sido tão maltratado por nós, humanos, que ameaçamos a sobrevivência de aves, répteis, mamíferos… das águas, do solo… e quando tivermos acabado com tudo isso, nenhum de nós sobreviverá.

Chegada de Luísa em seu novo lar no NEX no dia 07 de fevereiro de 2021 onde esta hoje

Floresta com bicho, bichos na floresta – floresta diversa, de árvore, rios, cavernas… e gente. Quem ama as onças, ama tudo o que está relacionado a elas. Pois você sabia que os primeiros homens americanos pintaram onças em suas gravuras espalhadas por esse sertão? Você sabia que todos os caatingueiros reconhecem o direito que as onças têm a viver em seu território? Sim! A Caatinga e todos eles têm lições incríveis para nós, sejamos urbano ou pé-na-roça, amazônida ou gaúcho. Pois veja:

Os criadores que prenderam a Luísa nas cavernas fazem o manejo extensivo de seus rebanhos, o que significa deixar que se alimentem da vegetação nativa, muitas vezes longe da propriedade e, por isso, os rebanhos ficam expostos a todo o tipo de eventos (roubo, ferimentos, atropelamentos, comprometimento da saúde por falta de alimento ou água, acidentes com animais peçonhentos, como cobras, e encontros com as onças).

Rebanhos de caprinos e ovinos em manejo extensivo na Caatinga

O Programa Amigos da Onça, ao longo de seu trabalho de quase 10 anos na região, percebeu que a construção de currais adequados para a pernoite dos rebanhos reduz consideravelmente as perdas, e construiu 18 para pequenos criadores de caprinos e ovinos da região do Boqueirão da Onça. Mas, nem todos os criadores têm condições econômicas de construir currais semelhantes a esses e manejar o rebanho desta forma e, porque os rebanhos são sua fonte de renda, fazem um grande esforço para conciliar suas atividades com a conservação da Caatinga, da qual dependem.

Chiqueiros a prova de onças construídos pelo Programa em duas comunidades do Boqueirão

Pensando na qualidade de vida do caatingueiro e das onças, o Programa Amigos da Onça continua buscando recursos financeiros e parceiros que permitam a construção de novos currais (informações na aba do Programa aqui no site do IPC), para a transição de manejo, que já se mostrou efetiva em outras comunidades.

Os conflitos com onças-pintadas e onças-pardas não são de fácil resolução e envolvem diferentes cenários, grupos sociais e instituições, lembrando que uma coisa que funciona em um lugar pode não funcionar no outro. Sabemos que sem a cooperação das comunidades locais, inclusive do criador que teve seu rebanho atacado, não seria possível resgatar Luísa.

Trabalhar com pessoas e com onças não é uma tarefa simples como podemos ver na história da Luísa, e qualquer aparente solução rápida será com certeza leviana… e arriscada. Como em nosso cotidiano, nem sempre um problema se resolve removendo-o dali para outro lugar – podemos estar gerando problemas maiores… e as questões éticas envolvidas em lidar com vida de bicho e de gente não podem ser ignoradas.

Os desafios na Caatinga são imensos como ela, esperamos como Programa poder colaborar para que haja coexistência entre bichos e gente no sertão. A história da Luísa é utilizada como inspiração para a continuidade dos esforços de conservação das outras onças-pintadas e onças-pardas que estão livres no Boqueirão da Onça e no restante do bioma. Caatinga sem onça, fica triste, incompleta, e lugar de bicho é… você já sabe… na natureza!

A Caatinga inteira ficará grata se você olhar Luísa… e repartir com as outras ‘Luísas’ livres seu saber e seus recursos. O Programa Amigos da Onça aceita doações de indivíduos e instituições, nesse esforço de manter o direito à vida de seres livres em ambientes preservados, sejam plantas, bichos ou gente. Se puder colaborar, nos procure, venha ser amigo da onça você também!

Segue o link do vídeo com o documentário de 16 minutos sobre o primeiro resgate de Luísa: https://vimeo.com/376575661

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